Maratona de Madrid 2015

No passado dia 26 de Abril disputou-se a 38ª edição da Maratona de Madrid e em simultâneo também uma meia maratona e uma corrida de 10 km. Havia portanto distâncias para todos os gostos e preparações. Desta forma é possível que mais pessoas vão a Madrid participar na grande festa do atletismo. Em 2014 tivemos alguns corredores na meia e outros na maratona.

A prova é difícil uma vez que tem inúmeras subidas que totalizam mais de 500 metros. Não tem portanto nada a ver com as maratonas planas que conhecemos e de que tanto gostamos como Sevilha e Porto. Mas porque é uma maratona mais exigente a satisfação de a fazer é maior e a entrada no Parque do Retiro tem um sabor especial.

 

 

A prova começa na Praça de Cibeles às 9h00 e este ano tinha cerca de 15.000 inscritos para a maratona. Os primeiros 6 km são sempre a subir no Paseo de la Castellana numa grande recta. Seguem-se 7 a 8 km de ligeira descida mas que permitem aumentar um pouco a velocidade e descontrair um pouco. Até ao km 25 o percurso apresenta algumas subidas e as respectivas descidas que vão no entanto desgastando os corredores. Entre os km 26 e 28 temos uma acentuada subida na zona da Casa de Campo. Até ao km 33 o trajecto é a descer ou quase plano e a partir daí as coisas complicam-se! Até ao km 40 é praticamente sempre a subir e quem não estiver realmente bem preparado vai acusar bastante o desgaste e cada km torna-se mais lento. A partir daí desce ligeiramente e entramos no Parque do Retiro onde corremos algumas centenas de metros até cruzar a linha de meta.

O público espanhol é fantástico e desloca-se aos milhares para apoiar os corredores. Estão sempre a gritar palavras de incentivo como “campeon” e “ânimo”. Vi um enorme cartaz que tinha escrito: “ O vosso esforço é o nosso orgulho” e no meu caso que tenho a bandeira estampada na t-shirt e o nome, várias pessoas gritaram “Fuerza Jorge de Portugal”. Arrepiante! Por volta do km 19 e mais concretamente na zona das Portas do Sol e dada a presença de milhares de pessoas, passávamos por um estreito corredor de uns 2 metros de largura, onde o barulho era ensurdecedor. Não sei o que acontece com os outros corredores mas comigo estes estímulos funcionam e mesmo quando bastante cansado este apoio dá-me um shot motivacional e lá acelero um pouco.

Em relação à minha prova e dada a preparação que fiz ou antes que não fiz, a maratona até não correu mal. Comecei com uma cadência de 5:30/km nos primeiros 6 km de subida e depois aumentei o ritmo e passei nos 21,097 km com uma cadência de 5:18/km. Mantive mais alguns km e depois tive um problema com um gel que me obrigou a uma paragem de alguns minutos. A partir daí já não consegui retomar o ritmo inicial e ao km 35 tinha uma cadência de 5:39/km. Entre os km 33 e 40 é sempre a subir e a cada km que passava eu ia baixando o ritmo. É nesta zona que se faz a última selecção e onde vem ao de cima a preparação dos corredores! Passei a meta com 4:03:53 o que equivale a uma média de 5:47/km.

 

A chuva esteve sempre presente embora no início com pouca intensidade e foi depois aumentando e nos últimos km caía com muita intensidade. A roupa estava tão ensopada que me assou onde nunca me tinha ocorrido e portanto nas zonas que não estavam protegidas… Nada que o Halibut não resolva. Seguiu-se o almoço de recuperação e depois o regresso a Lisboa.

 

Outro aliciante de Madrid tem que ver com o facto de ser fácil participar nesta maratona. Até 2 a 3 semanas antes ainda é possível a inscrição e basta sair de Lisboa no sábado de manhã e voltar domingo à hora de jantar. É um pouco cansativo mas por outro lado é prático e económico.

Espero voltar em 2016.

 

 


Auto-análise na Geira

 

-

 

O desporto faz parte da minha vida desde os 7 anos, na ginástica do Sporting. É-me intrínseco, faz parte de quem eu sou. Ginástica, natação, krav maga, mergulho com garrafa, paintball. Até que chegou a corrida, e é esta que mais prazer me tem dado e à qual mais me aplico, dentro das minha possibilidades de tempo e económicas.

 

E apenas percebe este prazer, e esta necessidade, quem está no mesmo contexto, pelo que, muitas vezes, não temos o “reconhecimento e compreensão” de alguns amigos e família. No meu caso, apenas o meu pai acha piada a estas loucuras, porque gostaria de fazer o mesmo caso tivesse menos idade.

 

Mas, para além do prazer, o desporto também nos dá conhecimento de nós mesmos, dos nossos objectivos e das nossas capacidades. Sempre detestei o desporto de competição. Não faz qualquer sentido, para mim, esticar o meu físico para ser a melhor. Tal como ser a melhor da turma, ou ser a colega mais popular também nunca foram objectivos. Sabia bem, quando acontecia, mas não lutava por isso, e por essas razões.

 

E as provas demonstram-me quem sou e o que representa a competição: lutar comigo mesma. Acabar a prova. E acabar com menor sofrimento. E gozar a envolvente, daí a preferência pelos trilhos. E, sendo possível, manter uma conversa gira, e trocar impressões e brincadeiras com quem vou. E, também, sendo 100% sincera, também me proponho ultrapassar todos os rabos maiores que o meu. Mas, vendo bem, não são assim tantos.

 

As provas também me ensinaram que só acelero em duas situações: quando estou chateada com alguma coisa ou quando começo a sentir a meta e quero pôr um ponto final no cansaço. Não me orgulhos da primeira, mas sou assim.

 

Depois, gosto dos parabéns dados pelas pessoas de quem gosto e de frases simples de apoio como “estiveste bem” É fútil e narcisista? É, claro. Mas, como também gosto de dar esses parabéns, a situação equilibra, vá.

 

Este é o resumo dos sentimentos e compreensão da minha realidade que estes 50 km me trouxeram e que decidi partilhar, numa perspectiva diferente.

Quanto à prova propriamente dita, o arranque custou-me horrores, como custa sempre, porque não tenho, nunca, energia inicial, em subidas e rapidamente fiquei


 para trás. Assustei-me quando me apercebi que havia a hipótese de fazer toda a prova sozinha. Mas racionalizei que sou teimosa e que o faria, excepto se um dos lobos do Ruben me aparecesse pela frente. A correr, a andar, a rastejar, mas faria. Mas apanhei o senhor dos lobos, numa descida, e fizemos a prova juntos, a conversar sobre modelos de negócio, o que nos levou a ignorar as fitas por três vezes, e a ter que voltar para trás. Encontrámos o resto do grupo aos 17 km e fizemos todos a prova juntos até ao km 43 km, numa descida de downhill, onde o Ruben pediu para avançarmos, porque era uma descida (quem conhece o Ruben sabe o que significa), íngreme e as pernas tinham dado de si. Exactamente, esse foi o preço que ele pagou, pelos 50 km no Piodão e os 65 km em Sicó, nos meses antecedentes.

 

Segui, pela adrenalina de completar a primeira ultra e porque fisicamente sentia-me bastante bem. E assim passámos o rio e completámos a prova. O Ruben também, chegou depois, acompanhado pelo Nelson, que voltou para o acompanhar uns km atrás, depois de ter terminado a própria prova.

 

Mas, nessa noite, após a prova, a corrida deu-me novas conclusões: devia ter ficado e acompanhado um amigo, que também me acompanhou. Porque era irrelevante acabar em 8 h ou em 9h. Era irrelevante chegar à meta qualificada ou desclassificada. Porque podia ter ajudado a tornar-lhe a descida menos dolorosa e podia tê-lo chateado com o monte de disparates que costumam sair da minha boca: “Sandra, os 10 minutos ainda não passaram, não podes dizer coisas malandrecas”. Percebi que, sendo absolutamente legítimo para as outras pessoas, a mim, pessoalmente, e neste tipo de provas, o que faz sentido é acabar o meu desafio, que tem o comprimento de 50 km, e que acaba geograficamente no local onde está um pórtico. E, se o acabar, apoiando alguém, mesmo que desclassificada no cronómetro, sabe igualmente bem. Ou melhor.

 

Resumo: aos 30 km toda a minha pessoa era uma dor e achei que não acabava. Mas tudo passou e as forças estão sempre a renascer. A prova é lindíssima, o verde é deslumbrante, a experiência na barragem é diferente, o Avé César é sempre divertido, passamos por cavalos e vacas e NÃO HÁ NADA que se compare com correr em trilhos e no meio da natureza. Quem não o faz não tem a mínima noção do que significa. Parabéns à equipa laranja (e convidados) que terminou integralmente, e bem, nas duas provas, à Daniela, dos Cães d´Avenida e ao Mário a quem vou assediar para se juntar à equipa. E parabéns especiais à Ana Varejão, que nunca fez qualquer desporto, cuja vida profissional e pessoal eu conheço como sendo estafante e absorvente, e que, mesmo assim, no espaço de um ano, começou a correr e a fazer provas desta natureza. E que está a descobrir o prazer e a refilar bem menos por metro quadrado. THE END

 

Madeira Island Ultra Trail - MIUT 2015

Caros Run4Fun, queria fazer uma descrição épica e emocionada da minha passagem pelo MIUT, mas não sei se algum dia conseguirei alinhar convenientemente as ideias acerca daquela prova. A paixão pelos trilhos parece-me fácil de compreender, mesmo por quem não a partilha, e na Madeira deve estar uma dos maiores desafios que podemos encontrar em Portugal. Mas desde que decidi arriscar a minha participação, nunca estive seguro do que ia acontecer. “Hope for the best, prepare for the worst” foi a minha linha orientadora, mas na práctica nunca treinamos tanto nem tão bem quanto queremos, e os relatos que ouvi das edições anteriores não me traziam esperança nenhuma. Excepto de empenar à grande e à Alberto João, claro.

Porquê ir? Acho que se resume tudo a testar os meus limites. E a fazê-lo rodeado por quem me compreende e partilha o prazer de correr na natureza. No MIUT encontrei tudo isto em doses maciças, a parte da ilha onde decorre a prova consegue ser inclemente e demolidora, e ao mesmo tempo de uma beleza de cortar a respiração. Ver o por do sol no Pico do Areeiro, acima das nuvens… alternar entre o verde luxuriante e o inóspito e quase lunar do maciço central… as levadas… os degraus… tudo sensações fortes que me vergaram mais do que uma vez, mas felizmente e com a ajuda dos loucos que correm ao meu lado, não levaram a melhor.

Tenho sempre como objectivo apenas terminar bem as provas em que participo, é um objectivo modesto mas sei o que posso ambicionar. Desta vez fiz muita coisa bem feita durante a prova, em termos de alimentação e hidratação por exemplo, ritmo e resiliência, e fiz também as normais (e outras menos normais) asneiras de maçarico amador das corridas. Tudo somado, chegar ao fim tem tanto mérito meu como de quem fez o percurso comigo. Antes e durante a prova. Mas em vez de nomear todos e transformar este texto nas páginas amarelas, destaco apenas um pelo exemplo que é para mim de Atleta e Homem, pela modéstia e bom humor, pelo empenho e prazer que transborda nos trilhos: obrigado Luis Matos Ferreira

Abraço,

Miguel Serradas Duarte.

P. S. - a fotografia engana, o trail não faz mal wink emoticon.